Libras são mais eficientes para inclusão do que aparelhos auditivos
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Sob o barulho das turbinas dos aviões que decolam e pousam no aeroporto de Congonhas, Neivaldo Zovico gesticula com sua língua materna para se fazer entender – as Libras, a língua brasileira de sinais. Ela destrava o conhecimento do homem de pouco mais de 50 anos que, quando criança, era repreendido pela mãe ao usar as mãos para mostrar queixas e reações.

Zovido é vice-presidente do Conselho Estadual de Assuntos da Pessoa Portadora de Deficiência (CEAPPD) e diretor-regional em São Paulo da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), cuja sede paulista fica em meio ao zumbido das aeronaves.

Neivaldo é surdo desde que nasceu, em Limeira (interior de SP). “Meu irmão mais velho também é surdo. Meus pais nos levaram para fazer o diagnóstico, e o médico perguntou a eles se eram primos. Não eram, não tinham nenhum parentesco”, diz, por meio de um intérprete.

A surdez é genética e tem ligação com a ancestralidade – é possível que algum parente, em um passado distante, compartilhasse da mesma dificuldade de Neivaldo. Ao seu lado, o intérprete André Barbosa de Oliveira, 43, corre para transformar em palavras os gestos feitos por ele.

Há uma urgência, quase uma angústia, para que todas as palavras saiam e a comunicação se liberte dos sinais de positivo ou negação. Surdos que já nasceram sem ouvir e cuja dificuldade em decodificar sons que nunca conseguiriam processar – e transformá-los em processos receptivos como os de quem ouve normalmente, desde criança – estão rejeitando aparelhos e aceitando o que eles são. Eles não querem inclusão; eles querem ser quem eles realmente são.

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A reportagem identifica essa pressa já na primeira pergunta. A resposta permeia 30 minutos bem-articulados e traduzidos para o português pelo intérprete. Uma saga com início, meio e fim. E a história sem sons de Neivaldo fala mais alto que o ronco das turbinas dos aviões — que, para eles, pouco importam no desenrolar da conversa por sinais.

Identidade e não deficiência

Há um discurso entre os portadores de surdez que nega a impressão de “corpos danificados”, conforme diz Hugo Eiji, graduado em pedagogia com habilitação em educação de deficientes da áudio-comunicação pela PUC-SP e que atua com projetos de educação e cultura inclusivas.

No texto “Identidades Surdas”, ele interpreta essa reação como a luta pelo reconhecimento da surdez como uma das formas de “estar no mundo” – não ser capaz de ouvir seria uma diferença, como as que existem entre raças e etnias, por exemplo.

“Em uma espécie de coral, soltavam uma música, o interprete fazia os sinais e os surdos, como um conjunto, os repetia com uma luva branca. Todos os ouvintes achavam lindo, mas os surdos se sentiam como papagaios.”
André Barbosa de Oliveira, intérprete

“A surdez ultrapassa o campo discursivo das deficiências, da patologia e dos vários enunciados biomédicos para ocupar um lugar privilegiado no campo dos estudos da cultura, das ciências sociais, da linguística e da educação. Para além de narrativas clínicas e de postulados médicos, falar e sinalizar sobre a surdez é adentrar por questões de identidades, expressões culturais, diferenças, lutas por conquistas e efetivações de direitos”, afirma.

Neivaldo Zovico, da Feneis
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Sua tese é a de que a afirmação da surdez é uma “forma positiva” de existir e negar a orientação que tenta a todo custo introduzir o “audismo” –a comunicação por sons—a quem não consegue ouvir.  “As novas compreensões concretizam a afirmação do ‘ser surdo’ como uma forma positiva de existir, que se desdobra em uma série de expressões identitárias, a confrontar a ideia de condição limitante e patológica que precisa ser superada”, diz no texto.

É uma formulação que se aproxima da luta dos surdos da Feneis, de Neivaldo, por espaços. “Eu quero discutir política e futebol como todos discutem”, afirma o dirigente.

Romper esse limite, igualando os surdos à população ouvinte, faria a inclusão. “Se antes eram percebidos como ‘portadores’ de uma enfermidade que os apequenava diante de um mundo ouvinte, ou como deficientes, acolhidos com caridade por instituições filantrópicas-assistenciais, muitos surdos enlaçam-se em lutas políticas, organizados em associações e movimentos populares, a reafirmar e reivindicar direitos”, conclui Eiji. Neivaldo é um deles.

A voz dos surdos

André Barbosa de Oliveira é magro, de óculos e aparenta ter menos do que os 43 anos que ostenta. Ele está ao lado de Neivaldo para os que não entendem a linguagem de sinais possam se comunicar sem falhas.

Ele frequentava um culto evangélico em São Paulo e percebeu que havia uma exclusão dos não-ouvintes. Havia uma interpretação pela velha linguagem dos surdos, que traduzia letras para sinais, e por fim as transformavam em palavras, algo muito comum até os anos 1980. “Muitos diziam que não entendiam a interpretação, porque ela interpretava o português sinalizado. Como surdo, eles tinham que quebrar a cabeça para montar a mensagem.”

Um dos exemplos que cita é o coral montado por surdos à frente das celebrações: eles ficavam virados para os fiéis, com o intérprete à frente. “Soltava uma música, o interprete fazia os sinais e os surdos, como um conjunto, os repetia com uma luva branca. Todos os ouvintes achavam lindo, porque eles estavam traduzindo a música. Os surdos diziam que se sentiam como papagaios, porque não ouviam a música e não sabiam o que estava acontecendo.”

Educadamente, Nivaldo interrompe André para complementar sua visão. Segundo ele, muitos deficientes auditivos não aceitam ser chamados de surdos, “porque acham que é pejorativo”, o que estimularia essa cultura do “audismo”. “Elas dizem que querem ouvir. Os meus amigos são surdos, e a gente discute sobre política, futebol, todos os assuntos em língua de sinais.”

“Não aceito ser chamado de deficiente auditivo. Sou surdo, Tenho uma cultura, uma língua própria.”
Neivaldo Zovico, da Feneis

“Você precisa consultar o surdo”, relata, abrindo o leque para as diferenças de tratamento. “Eu nunca quis usar aparelhos, e meus pais nunca tiveram condições financeiras para comprar”, diz. “Meu cérebro [quando usava o aparelho para surdez] não estava pronto para aprender a decodificar o som. Só percebia barulhos. Qualquer barulho que se aproximava do meu cérebro, ele não entendia o som de A, de um B. Para mim, era um zumbido total. Foi quando eu resolvi tirar o aparelho. Para mim, aquilo virou uma coisa natural, não ouvir.”

“Experimentei o aparelho e devolvi”

Aos 60 anos, Sônia Regina Nascimento de Oliveira experimentou a exclusão em escolas para não-surdos, mas formou-se na modalidade de libras em letras e hoje é pós-graduada pela FGV. “Fiquei surda aos 11 anos por consequencia de uma meninginte”, relata, por meio de mensagens de texto no WhatsApp – ao contrário de boa parte dos surdos, ela chegou a ser alfabetizada em português, o que dispensa um intérprete em contatos por escrito.

Ela convivia com ouvintes quando foi diagnosticada. “Minha familia nao sabia como lidar com isso. Os médicos pediram que eu me afastasse da escola por dois anos. E, depois disso, deveria retomar os estudos em uma escola especial. Entrei em depressão. Eu tinha a visão da surdez que era vigente na época: deficiência, perda cognitiva, invalidez…”

Por anos, Sônia foi poupada do contato social para evitar preconceitos. Na adolescência, experimentou pela primeira vez o aparelho. E devolveu.

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“Eu tenho memória auditiva e sei como são os sons. O que ouvia com aparelhos eram apenas barulhos horríveis. Os médicos tentaram me convencer que me acostumaria, mas preferi fazer leitura labial. Eu já conhecia a língua portuguesa e isso ajuda muito — a maioria dos meus amigos nao consegue interagir assim como estou fazendo agora com você.”

Aos 50 anos, entrou na faculdade e iniciou mestrado na Fundação Getúlio Vargas. “A língua de libras me deu uma identidade, uma língua, amigos, melhor visão de mundo que até então eu entendia pela metade.”

“Não tenho vergonha de dizer que sou surdo”, gesticula Neivaldo. “As pessoas vêm até a mim e eu digo que sou surdo, mas aviso que elas podem escrever, converso com elas por meio da escrita.” Para ele, é preciso entender que a melhor opção para o surdo é ser surdo. “Não aceito ser chamado de deficiente auditivo. Sou surdo, Tenho uma cultura, uma língua própria.”

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