A enfermeira Leca Castro usa bolsa intestinal há 12 anos devido à doença de crohn
Arquivo Pessoal

Viver com uma bolsa coletora de fezes, a colostomia, é mais simples do que se imagina. Seu uso não interfere na rotina – é possível trabalhar, ir à academia e até a praia. O mais difícil não é se adaptar a ela, mas sim lidar com o preconceito. Assim a enfermeira Leca Castro, 49, colostomizada há 12 anos, descreve sua experiência.

“Prefiro minha vida como está hoje, pois posso fazer tudo. Antes da colostomia, não conseguia sair de casa, ia 30 vezes ao banheiro. A colostomia me deu a possibilidade de viver”, diz.

Combater o preconceito é um dos objetivos do Dia Nacional dos Ostomizados, comemorado nesta sexta-feira (16). Estima-se que cerca de 300 mil pessoas tenham ostomia no Brasil, de acordo com Angela Boccara, presidente da Associação Brasileira de Estomaterapia (Sobest).

As ostomias são intervenções cirúrgicas realizadas para criar uma comunicação entre um órgão e o meio externo. Entre elas há a colostomia (intestino), a traqueostomia (traqueia) e a gastrostomia (estômago).

A colostomia é uma exteriorização do cólon intestinal. Ela redireciona o trajeto das fezes do ânus para área externa da barriga, onde é acoplada uma bolsa coletora.

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Leca passou pelo procedimento devido a uma obstrução intestinal provocada pela doença de crohn, inflamação crônica do intestino. O uso da bolsa mudou sua vida no bom sentido. Tornou-se escritora – é autora do livro “Registros de um crohnista” (Editora Educere, 2015) – e voluntária na Associação Mineira de Ostomizados.

“Quando percebo que alguém está para baixo por causa da colostomia, mostro que aquilo está salvado sua vida. Por isso que, para os colostomizados, o convívio é importante. Para entender que não é um bicho de sete cabeças”, conta.

Geralmente o que leva ao uso de colostomia definitiva são o câncer de intestino próximo ao reto, a doença de crohn e a retocolite ulcerativa, segundo Angela. Já traumas, como no caso do presidente eleito Jair Bolsonaro, a necessidade da bolsa coletora de fezes é temporária, já que tem a finalidade de prevenir o risco de infecção enquanto a lesão cicatriza.

No lugar da bolsa, um “tampão”

A dona-de-casa Raimunda Santos, 57, também é colostomizada, em decorrência de um câncer de intestino há dois anos, mas não usa bolsa coletora.

Raimunda é colostomizada mas não usa bolsa, mas sim um oclusor intestinal
Arquivo Pessoal

Ao apresentar alergia severa ao material, acabou conhecendo um método chamado irrigação. Ele consiste em uma limpeza do intestino, realizada a cada três dias, no caso dela, por meio da introdução de cerca de 1 litro e meio de água no local, expelida após cerca de 20 minutos. A técnica é feita somente com orientação médica e suporte de equipamentos adequados.

“Uso um tampão [oclusor intestinal] e levo uma vida totalmente normal. Além de me causar dor na pele, a bolsinha fazia barulho e eu ficava bastante constrangida. Nenhuma roupa ficava bem, tudo marcava. Tinha que colocar sempre minha bolsa na frente”, diz. 

Ela conta que a colostomia exigiu uma reeducação alimentar, com dieta que exclui comidas gordurosas e que soltam o intestino. “Não posso mais comer linguiça”, diz.

Angela destaca que nem todas as pessoas podem utilizar o método da irrigação. “Apenas pessoas com colostomia definitiva à esquerda, que está associada ao câncer do reto-baixo. Isso se dá em função da própria anatomia do trato digestivo”, explica.

Leca relata que também teve problemas de irritação na pele por causa da bolsa, mas ela contorna com produtos curativos. A irrigação não pode ser utilizada na doença de crohn, pois agrava a inflamação no intestino.

A bolsa é feita de material plástico e tem 500 ml.

‘Nunca escondi minha colostomia de ninguém’

Segundo Leca, a pessoa só lembra que usa a bolsa quando enche ou descola acidentalmente do corpo, o que pode causar vazamento. Ela explica que uma das dificuldades mais comuns para quem a utiliza é esvaziá-la.

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“Muitas vezes as pessoas ficam com vergonha de esvaziar a bolsa em banheiros públicos. Eu oriento, nesses casos, a utilizar banheiros para pessoas especiais”, afirma ela.

Encarar a situação com naturalidade pode ajudar a tornar o processo mais fácil. “Nunca escondi minha colostomia de ninguém. Acho que isso ajuda não só a autoaceitação como a aceitação do outro. Sempre que tenho oportunidade, deixo as pessoas saberem”, completa.

Há homens que não fazem o autocuidado

Por meio de sua experiência como voluntária, ela diz que observa que os homens têm maior dificuldade em lidar com a colostomia. “Eles têm vergonha, não gostam da exposição”, diz.

“Atendo homens que não tem o autocuidado. Eles têm nojo deles mesmos e quem faz o esvaziamento da bolsa é a esposa, a mãe, a irmã. Isso é problemático porque quando você se cuida, você se aceita”, completa.

Angela ressalta que, não apenas o preconceito do outro, mas a autoestima de quem passa pelo processo é um dos principais desafios para os colostomizados. “A falta de controle da eliminação intestinal gera uma série de inseguranças, afetando o convívio social”, afirma.

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As fezes saem naturalmente do intestino para a bolsa, geralmente entre meia hora e uma hora após as refeições. Não há cólica. O paciente só sabe porque a bolsa fica mais pesada. 

O esvaziamento da bolsa é feito conforme ela vai enchendo, de uma a três vezes ao dia. Ela deve ser esvaziada diretamente no vaso sanitário. A bolsa é trocada a cada 5 dias pela própria pessoa e pode ser feita em casa. “As bolsas de qualidade têm filtros de carvão ativado, que inibem o odor”, diz Angela.

Leca chama a atenção para outros pontos que afetam as pessoas colostomizadas: a desinformação e a falta de material. “É importante ressaltar que a bolsa deve ser fornecida pelo município e pelos planos de saúde”, explica.

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