Prêmio Nobel de Medicina foi para a descoberta do vírus da hepatite C
André Luiz D. Takahashi/Prefeitura de Votuporanga/Fotos Públicas

O prêmio Nobel de Medicina deste ano foi para a descoberta do vírus da hepatite C, feita pelos pesquisadores norte-americanos Harvey J. Alter e Charles M. Rice em parceria com o britânico Michael Houghton. Essa conquista científica, que possibilitou salvar milhões de vida, é fruto de anos de trabalho coletivo, que foi concluído em 1989.

“Sabia-se na década de 1970 e 1980 dos vírus da hepatite A e B e havia um outro tipo [de hepatite] que a gente sabia que era relacionada à transfusão, mas não se sabia se era viral”, relata o hematologista Phillip Scheinberg, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, que passou por treinamento no NIH (National Institutes of Health), nos Estados Unidos, junto a Harvey J. Alter.

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“Começou tudo dentro do banco de sangue americano. Foi um trabalho que demorou muitos anos”, destaca.

De acordo com nota divulgada no site oficial dos prêmios Nobel, era motivo de grande preocupação o desenvolvimento de hepatite crônica causada por um agente infeccioso desconhecido em uma quantidade significativa de pessoas que receberam transfusões de sangue.

“Alter e seus colegas mostraram que o sangue desses pacientes com hepatite pode transmitir a doença aos chimpanzés, o único hospedeiro suscetível além dos humanos”, diz trecho do texto.

Estudos posteriores também demonstraram que o novo agente infeccioso tinha características de um vírus. “Você tem uma série de técnicas que permitem isolar partículas, que são materiais genéticos, e saber se isso faz parte de um micróbio conhecido ou não”, explica Scheinberg.

O hematologista acrescenta que os vírus podem ser compostos de materiais genéticos diferentes: RNA ou DNA. Além disso, mesmo se for o mesmo tipo de molécula, elas apresentam códigos distintos – é isso o que permite confirmar casos de reinfecções pelo novo coronavírus, por exemplo.

“As investigações metódicas de Alter definiram uma forma nova e distinta de hepatite viral crônica. A doença misteriosa ficou conhecida como hepatite ‘não A, não B'”, detalha o comunicado divulgado pelo comitê organizador do prêmio.

O próximo passo foi identificar as características desse novo vírus. É nessa etapa que começa a contribuição do britânico Michael Houghton: trabalhando para a empresa farmacêutica Chiron, ele foi responsável por isolar a sequência genética do vírus, a partir de uma estratégia que ainda não tinha sido testada.

Ele e seus colegas de trabalho clonaram fragmentos de DNA encontrados no sangue de um chimpanzé infectado. A maioria desses fragmentos veio do genoma do próprio chimpanzé, mas os pesquisadores previram que alguns seriam derivados do vírus desconhecido.

Depois, os pesquisadores usaram anticorpos extraídos do soro de pacientes com hepatite para identificar fragmentos do DNA viral clonado que codificavam proteínas virais. Assim, conseguiram mostrar que essas partes eram derivadas de um novo vírus de RNA pertencente à família Flavivirus. Ele recebeu o nome de vírus da hepatite C.

Charles M. Rice, por sua vez, foi quem demonstrou que esse vírus podia infectar as células, se replicar (fabricar cópias de si mesmo) e, portanto, causar hepatite.

“Para infectar, o vírus precisa entrar dentro da célula, senão ele não é capaz de fazer nada. Você tem receptores nas células humanas, é através deles que ele [vírus] se liga na célula e entra nela”, explica Scheinberg.

“Então, ele usa a própria maquinaria da célula para se propagar. Todo esse ciclo do vírus precisa ser desvendado. Aí que entram essas pesquisas”, completa.

O especialista destaca que o avanço tecnológico facilitou toda essa empreitada, mas nos anos 1980, o desafio era muito grande. “Eles estavam muito no começo, era uma época de emergência e aperfeiçoamento de técnicas de biologia molecular, clonagem e engenharia genética, mas hoje elas são rotineiras”, compara.

“Esta descoberta proporcionou o desenvolvimento de testes laboratoriais para o diagnóstico da doença, impedindo também a sua disseminação por meio de transfusões de sangue, transplante de órgãos e materiais contaminados, uma vez que a transmissão da doença é preferencialmente por via sanguínea”, afirma Cristhieni Rodrigues, infectologista do Hospital Santa Paula.

“Na última década, muito se progrediu no conhecimento da doença com o desenvolvimento de novas drogas terapêuticas com índices de cura superiores a 90%. Nada disso seria possível sem o estudo primoroso destes cientistas que contribuíram salvando milhares de vidas por muitas e muitas décadas”, avalia.

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