‘Eu já era alegre e fiquei um pouco mais’, diz Gabriela dos Santos Silva
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Quem conversa com a engenheira Gabriela dos Santos da Silva, 28, não imagina o que ocorreu com ela um ano atrás. Vivaz e bem articulada, ela conta que pretende fazer uma comemoração no próximo dia 29. O motivo: nesta data ela conseguiu vencer a morte. Gabriela é a primeira pessoa do mundo a realizar um transplante de fígado em decorrência da febre amarela.

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“Vou celebrar”, diz. Ela conta que tem pouca recordações do fatídico dia.

“Os sintomas da febre amarela são avassaladores. Por causa do quadro de encefalopatia provocado pelo vírus, eu estava bem confusa. Falava que minha prima era minha mãe. Não lembrava nem de mim. Eu olhava uma foto minha e dizia que não era eu, mas alguém que se parecia comigo”, afirma.

Segundo ela, o momento mais desesperador foi quando, após a operação, percebeu que não conseguia ler nem escrever. “Olhava para o livro e não conseguia identificar as letras. Também não conseguia fazer coisas práticas do dia-a-dia, como tomar banho, me trocar. Pegava a escova de dente de ponta-cabeça. Estava tudo invertido, fora do lugar”, conta.

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Hoje ela ainda tem pequenas sequelas com a leitura e a escrita. “Já leio, mas cansa a vista. Eu era leitora assídua e agora tenho que ser mais comedida. E na leitura ainda estou engatinhando também”, diz. Para reversão das sequelas, ela faz fonoaudiologia método Padovan e análise linha lacaniana.

Logo após a operação, ela também havia perdido a memória afetiva, mas logo se reverteu naturalmente, segundo ela. “Ela ficava olhando para o horizonte e não reconhecia a gente. Uma semana depois, um belo dia, ela então olhou para mim e começou a chorar. Tinha me reconhecido”, relembra a mãe, Rosalia de Jesus Santos.

Gabriela na obra em Mairiporã, onde atua como engenheira
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As sequelas neurológicas são consideradas reversíveis se devem à encefalopatia hepática (EH) provocada pelo vírus da febre amarela, segundo o cirurgião Luiz Augusto Carneiro D’Albuquerque, diretor da Divisão de Transplantes de Órgãos do Aparelho Digestivo do HC e professor titular da USP, que liderou a equipe que realizou o procedimento.

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“Hoje Gabriela faz uso de medicações diárias como qualquer transplantado, mas tem uma vida absolutamente normal”, completa. Segundo ele, há mais dois casos bem-sucedidos no HC, além do dela.

Ela passou por um transplante de fígado de emergência no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo, em 29 de dezembro, após sofrer falência hepática fulminante devido à febre amarela. 

Engenheira voltou ao local onde contraiu a doença

Gabriela conta que contraiu a doença no dia 16 de dezembro enquanto trabalhava em uma obra em Mairiporã, na Grande São Paulo, epicentro da doença durante o surto do verão passado. Ela teve a doença em sua forma mais grave.

Ela voltou ao local após o ocorrido. Segundo ela, isso fazia parte do tratamento de recuperação da memória. “Pessoas que passaram pela febre amarela ficam imunes à doença. Mas no meu caso eu passei por um transplante. Teoricamente eu não pego de novo. Como era um caso inédito no mundo, não se sabe se estarei imune também. Enquanto isso, me protejo com repelente porque não posso tomar a vacina por causa do transplante”, afirma.

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O cirurgião explica que os principais desafios do transplante, então inédito no mundo, foi lidar com a rápida evolução da doença e encontrar um órgão compatível em questão de horas. Além de levar em conta a debilidade do paciente causada pela febre amarela.

“É preciso ser muito ágil e ter a sorte de ter um órgão. A evolução da febre amarela gravíssima é hiperaguda. Cerca de 5% dos casos são considerados muito graves e, entre eles, a mortalidade é de 80%”, explica.

A mãe relembra que, na noite do dia 28 quando chegou ao HC, ela estava entre a vida e à morte. “Em coma, os médicos informaram que ela poderia morrer a qualquer momento”, diz.

Gabriela de férias em Vitória, um ano depois do transplante de fígado: vida normal
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Embora a cirurgia tenha sido bem-sucedida havia um temor, segundo o médico, em relação às sequelas provocadas pela encefalia. “Tínhamos muito medo de que fossem irreversíveis”, afirma.

Como é comum em casos de febre amarela no Brasil, a doença demorou a ser diagnosticada no caso de Gabriela. Durante duas semanas ela foi a diversos postos de saúde de São Paulo e voltou para casa com o diagnóstico de dengue, segundo sua mãe. “Ela tinha dores no corpo, dores nas articulações, febre. Não foi feito nenhum exame específico”, afirma Rosalia.

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Dez dias depois, ao passar pelo pronto-socorro do hospital São Camilo, uma rede particular, foi encaminhada diretamente à UTI (Unidade de Terapia Intensiva). De lá, transferida em caráter de emergência ao HC, onde realizou o procedimento.

“Demorei para ter noção da dimensão do que ocorreu. Sempre fui uma pessoa bem otimista e sempre gostei muito de viver. Acho que isso me ajudou. Eu já era alegre e fiquei um pouco mais”, afirma ela, que tem planos de fazer pós-graduação em permacultura, conceito de vida sustentável.

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